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sexta-feira, 13 de março de 2015

Você já rebateu um absurdo hoje?


Os tempos de crise são um terreno fértil para os discursos de ódio e apelos autoritários. Confrontá-los no dia-a-dia é uma forma de evitar que se tornem, um dia, projetos reais - por Matheus Pichonelli — publicado 06/03/2015

 
Tenho a péssima mania de responder absurdos com silêncio. Quanto maior o absurdo, menor a vontade de falar. Percebi a gravidade dessa relação porque tenho andado muito quieto ultimamente. A vida em rede me acostumou mal: habituado a conversar com quem já tem uma predisposição em ouvir, aprendi a despejar na internet, não sem certa arrogância, tudo o que tinha vontade de dizer e não disse quando o taxista falou que a cidade só teria jeito quando pegassem o bairro pobre, jogassem gasolina e botassem fogo. Ou quando a socialite levantou a taça de espumante e, com um olho na piscina e outro na bolsa Louis Vuitton, se disse assustada com a calamidade em que vivemos no Brasil.
Tudo começou, acho, na adolescência, quando a vizinha gente-boa levou uma tarde a me desejar boa sorte na minha viagem a São Paulo, onde dali em diante eu passaria a morar e estudar. Atenciosamente, ela me deu um roteiro de passeios, dicas culturas e cuidados na metrópole. Ao fim da conversa, soltou um “só tome cuidado porque é uma cidade infestada por imigrantes, e eles estão acabando com tudo”. Ainda hoje me questiono por que não a rebati, ali, na lata. Foi porque só tinha 19 anos? Por não querer ser indelicado? Para não azedar a boa vizinhança? Mas de que vale ter vizinhos assim, que só te respeitam porque te veem como um igual?
Na conversa, ela me pedia para reparar como os imigrantes de vários sotaques se espalhavam em nossa cidade do interior trazendo sujeira e insegurança. “Em São Paulo é ainda pior”, reforçava. Lembrei que, naquela época, uma série de assaltos a repúblicas estudantis das redondezas era noticiada pelos jornais locais. Pouco depois, a quadrilha foi identificada, e qual não foi o choque quando descobrimos que um vizinho nosso, branco e de classe média, estava envolvido. Na mesma época, acordamos certa manhã de sonos intranquilos com a Polícia Federal à porta do prédio. Os agentes estavam em busca de um morador, querido por todos, que integrava um suposto esquema ilegal de fabricação e comércio de couro. A realidade desmentia a tese daquela senhora que se gabava de ter livros por todo canto de casa, embora não tivesse olhos para entender o mundo para além da própria janela. “A insegurança é sempre o outro”, concluía comigo mesmo, sem jamais dizer nada.
À medida que me adaptava à vida em São Paulo, e aos círculos menos inóspitos da vida universitária, me acostumei a falar em guetos. Neles, enquanto tentávamos entender a lógica da discriminação em um país ainda marcadamente desigual, dividíamos nossas angústias como numa roda de reabilitados. Falávamos da tia racista que achava um absurdo o namoro do artista mulato com a atriz branca. “Preconceito contra eles mesmos”, repetia a parente, para a concordância bovina de todos à mesa.
A sequência era conhecida. “Bons eram os tempos dos militares; tomávamos cascudos, mas andávamos na linha”. “O Brasil é um país de belezas naturais e um povo criado na malandragem”. “Político é tudo igual”. “Virou gay porque faltou chinelada”. “Virou lésbica porque não encontrou o cara certo”. “Ninguém mandou usar saia”. E etc, etc. Nos círculos sociais, lidamos o tempo todo com autodidatas especializados em política e sociedade.
Toda vez que essas conversas reaparecem, é como se eu tivesse a chance de rebater aquela vizinha, já sem as amarras da imaturidade. Dias atrás ela reapareceu em uma conversa num Café decorado e com ar-condicionado. Vestia terno e tinha certeza que o calor tropical inibia a vocação do brasileiro ao trabalho. Exatamente à sua frente, separado apenas por um vidro blindado, um pedreiro se derretia para erguer um muro de tijolo sob o sol a pino. Pensei em apresentar um para o outro, mas, como sempre, calei.
“Deixem falar. São só ignorantes”, dizem os amigos, enquanto guardam os cartuchos para os grandes debates com professores, autoridades públicas, grandes corporações, etc.
A verdade é que nessas manifestações gratuitas de ingenuidade/ignorância não está o exercício saudável do debate. Está a fórmula autoritária de falar e ser ouvido e, se rebatido, correr para a linha segura do tatame com uma velha muleta: “É só a minha opinião, você precisa respeitar”. Confundimos, então, silêncio com respeito, e determinamos arbitrariamente quem merece e quem não merece ser contrariado. Aquela lição canhestra herdada da ditadura, a de que política não se discute, ainda faz estragos: dizer o que se pensa se transformou em uma espécie de pregação a convertidos. Por aqui, debate, conflito e contraponto não sensibilizam consensos, mas melindres. Por isso, e para evita-los, calamos.
Tempos atrás, quando todos pareciam satisfeitos em seus quadrados, essas pontas de fagulha pareciam inofensivas. Agora os tempos mudaram. Em parte devido à conjuntura mundial, em parte devido a apostas equivocadas dos governos locais, em parte devido à insensibilidade para perceber que os modelos se esgotaram, o cobertor se encurtou, as saídas se estreitaram, a crise se avizinhou, o pirão acabou e a primeira reação nesses guetos é garantir primeiro a sua farinha.
Como? Com balas.
Aquele desprezo em relação ao “outro” se transformou em solução para o mundo. “Se ele se beneficiou de uma estrutura que já não me beneficia; se ele quer acesso a um sistema que antes era apenas meu; se ele votou ao contrário das minhas convicções, então não são seus contrapontos que precisamos eliminar; são os seus autores”. Por isso temos assistido a uma escalada assustadora de discurso de ódio e incitação à violência em tempos recentes.
O mundo ficou mais complicado e, à medida que se complicou, se tornou um território propício para associações desastradas de ideias. Elas pipocam o tempo todo em todo canto. Acuados, grupos antes hegemônicos encontraram, nos impasses da crise política e econômica (não necessariamente nessa ordem), pretextos para tirar do armário todo o desprezo guardado por minorias e sistemas de representação democrática – a começar pelo direito ao voto. Erra quem pensa se tratar de uma disputa entre elite e remediados. A disputa é normativa, e leva muita gente das classes menos abastadas a reproduzir absurdos em público – para não dizer criminosos.
Durante a semana, relatei em minhas redes a história de um palhaço (literalmente) que entrou no ônibus de Vinhedo à Unicamp para pedir dinheiro a um projeto social e pregar a palavra do Senhor. A sessão se transformou numa aula de misoginia: o sujeito atribuía à novela a decadência das famílias. Pela sua lógica, os homens andavam violentos porque estavam cansados de serem trocados pela TV. Pior: quando agiam, tornavam-se vítimas de leis como a Maria da Penha. Entre risos e pausas para a reflexão, o sujeito se queixava das aleivosias precoces das meninas, que engravidavam cada vez mais cedo e cada vez mais cedo lotavam hospitais com casos de câncer de mama. Porque o peito foi feito para amamentar, dizia o palhaço, não para silicone. Aquele discurso comum, que vem desde Eva e coloca o homem como vítima de demônios exteriores a ele – a tentação, a opressão da lei, a novela, as saias – é a argamassa da cultura do estupro que tanto refutamos quando ela se manifesta entre os formadores de opinião, sobretudo apresentadores babetas de talk show. É também a argamassa de políticos conservadores que fazem do espaço público uma cruzada para bandeiras medievais. Mas só reagimos quando o estrago já está feito – e a ideia torta de mundo virou projeto de lei ou corrente de Facebook.
Por isso decidi contrapor o palhaço. Disse que ele ofendia as mulheres daquele ônibus ao justificar a violência masculina e ao associar uma doença grave com uma questão moral. Foi chato. Foi duro. Gaguejei. Passei o resto da viagem com os olhares voltados a mim até meu ponto. Mas falei – e só assim o palhaço parou de dizer groselhas no ônibus, e as pessoas pararam de concordar. Ou fingir que concordavam.
Pode parecer uma bobagem (e talvez seja), mas deixar passar a oportunidade de rebater um argumento torto porque a pessoa é ignorante ou mal informada não nos torna respeitosos ao diálogo. Só nos torna coniventes. E arrogantes, porque escolhemos arbitrariamente quem merece ou não ser contestado – e o sujeito humilde, como o palhaço do ônibus, não é menos digno de arremedo do que de pena.
Por isso, amigos, nesses tempos de confusões galopantes e buscas por soluções fáceis, não deixem os absurdos ficarem como a última palavra. Ninguém é dono da verdade, mas quando o absurdo se torna verdade é porque alguma coisa saiu errada. Porque a razão se acomodou no gueto dos entendidos e não quer descer do pedestal. Pois desçam. Ninguém vai matar de raiva ou de fome se, ao defender a limpeza ética dos ditadores, for lembrado que o mais duro dos generais-presidentes adotou a própria neta para estender a pensão vitalícia para a família. E que a farra das pensões de gente graúda pesa mais aos cofres públicos do que qualquer (assim chamada) “esmola”.
Ninguém fará estragos se perguntar ao entusiasta de regimes autoritários qual a vantagem entre poder investigar desvios públicos e não poder – ou levar para o camburão quem ameaçar desobedecer. Ou quais foram mesmo os crimes cometidos por opositores “suicidados” nos porões do regime por terem simplesmente feito o que se faz hoje nas ruas: contestar. Ou qual o país que instituiu a pena de morte e controlou a violência dita “endêmica”. Ou qual o país onde deputados aceitaram propina para colaborar com uma empresa inexistente criada por uma reportagem de jornal (eu conto: a Inglaterra).Também não fará mal a ninguém perguntar onde está escrito na Bíblia que as lâmpadas fosforescentes podem ser usadas contra casais do mesmo sexo. Ou do que exatamente nos defendem os Gladiadores do Altar". Ou questionar quais são mesmo as demandas históricas de brancos e heterossexuais que, acuados pela "ditadura gay", querem sair às ruas para defender direitos que lhe são negados.
São só perguntas, e não podem ofender mais do que o silêncio de quem é diariamente ofendido pelos absurdos que podem ser só absurdos, mas entram na história como a última palavra.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Violência contra a Mulher: Não mate o direito de ser feliz

Assim como Luciana Santos e tantas outras pessoas, também me sinto indignado com os resultados apresentados, pois eles nos remetem a dura realidade que o outro é o outro, quando este outro e outra deveriam ser a imagem e semelhança de Deus... A muito para “encontrarmos” a “terra prometida”, mas há muito que ser feito neste caminho.
 
Por Luciana Santos
        Neste mês de março, que já está chegando ao fim, realizamos uma verdadeira maratona pelo estado de Pernambuco conversando com as pessoas, nos mais diferentes lugares e Instituições, sobre os direitos das mulheres e a necessidade imperiosa de darmos um basta à violência contra a mulher. Quase chegando ao fim do nosso roteiro de 65 atividades pela desconstrução da cultura do machismo recebo o resultado da pesquisa divulgada nesta quinta-feira (27) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). 
      De acordo com o estudo 58,5% dos entrevistados concordam totalmente (35,3%) ou parcialmente (23,2%) com a frase "Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros". O levantamento diz ainda que 65,1% concordam inteiramente (42,7%) ou parcialmente (22,4%) com a frase "Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas". É chocante!  Em que mundo uma pessoa pode achar que outra MERECE ser estuprada por qualquer que seja a razão?!
        Os números não são exatamente inesperados. Sabemos da grande carga cultural que envolve as questões que dizem respeito à mulher, mas olhar a estatística nos dói de uma maneira diferente.  Essa inversão de papéis entre agredidas e agressores não pode mais ser tolerada. É preciso combater a cultura do machismo que responsabiliza a mulher pela brutalidade, pela ignorância e pela violência.  Essa cultura que desrespeita a mulher em seu lar, em seu trabalho e na rua está na base de uma sociedade que não pode avançar para o caos, onde não há fraternidade, onde não solidariedade, onde não há justiça. Não é esse mundo que queremos!
        É preciso que cada um de nós, homens e mulheres, dediquemos um minuto que seja do nosso dia para pensar nessa escalada da violência contra a mulher. Precisamos perguntar a nós mesmos se uma pessoa quer ou merece ser vítima de uma agressão. Pensar no horror de um estupro. Pensar na dor de uma bofetada. Pensar no que se perde em cada vida sacrificada em nome do sentimento de posse e do senso comum do “não é comigo”. Um minuto dedicado a pensar se nós, nossas mães, irmãs, esposas, companheiras, namoradas, amigas, filhas... se essas mulheres merecem a dor, a humilhação e o sofrimento pelo simples fato de reivindicarem o direito de estar viva e de conviver em sociedade. 
        Os números são o retrato de uma realidade muito triste e cruel. Eles confirmam que ainda há muito trabalho a ser feito, o que para mim aumenta a responsabilidade e a força para persistir na luta. A cada mente conquistada uma vida pode ser poupada. É com esse pensamento que reforço, a cada homem e cada mulher, a relevância de sua participação nessa luta. Mudar as coisas, construir um mundo de justiça e igualdade social depende de nós, de nossa força, de nossa capacidade de não desanimar diante dos desafios.
        Nenhuma mulher pede para ser estuprada. Nenhuma! Nenhuma mulher pede para ser agredida. Nenhuma! Nenhuma mulher merece a violência. Nenhuma! Renovemos nossas forças, ergamos alto a nossa voz, sigamos juntos pelo fim da violência e defendendo até o último minuto o direito de cada mulher desse planeta a liberdade, ao respeito e a felicidade.
Luciana Santos é deputada federal e vice-presidenta do PCdoB

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Sustentabilidade pode ser cruel


O estudo "Os limites do crescimento” publicado, em 1972, pelo Clube de Roma foi um dos primeiros, se não o primeiro, estudo científico que impactou o mundo com a previsão da incompatibilidade entre a continuidade do crescimento econômico e da população e os limites dos recursos naturais. Hoje diríamos a insustentabilidade da nossa civilização diante dos limites do meio ambiente.

Isso significa que, por milhares de anos, a espécie humana teve um modo de vida que era sustentável. Isto é, o seu modo de vida não colocava em risco a sobrevivência do sistema social e da espécie humana. Isso basicamente por dois motivos: a) modo de produção com baixo impacto sobre meio ambiente; b) população humana relativamente baixa em relação aos recursos naturais. O aumento significativo da população mundial e do nível de produção e consumo no século XX e XXI alterou essa equação e agora enfrentamos sérios problemas ambientais e até mesmo da sustentabilidade da civilização na qual vivemos.

Alguns dizem que estamos diante da possibilidade do fim da espécie humana. Eu penso que, exceto por uma catástrofe de guerra nuclear, nós, os seres humanos, não temos capacidade de acabar com a espécie humana por nossas próprias ações cotidianas. Seria até muita pretensão da nossa parte pensar que temos todo esse poder! É claro que se nada de significativo for feito, enfrentaremos sérios problemas ambientais que gerarão graves problemas econômicos e sociais. Porém, se após uma profunda crise –incluindo aqui guerras por causa da água e outros bens naturais essenciais– a população mundial cair para, digamos, 500 milhões de pessoas (o que significaria a morte de 6,5 bilhões), não haverá mais problema de sustentabilidade. O número de sobreviventes será pequeno em relação à capacidade de natureza se refazer e de fornecer recursos renováveis.

A morte de toda essa gente seria, sem dúvida, algo terrível, e os pobres e os mais fracos seriam os primeiros a morrerem. Seria completamente inaceitável e injusto! Contudo, a sustentabilidade seria reestabelecida novamente. Assim como, a espécie humana viveu modos de vida ambientalmente sustentáveis por milhares de anos, apesar de eticamente injustas por causa de escravidão, servidão, exploração, patriarcalismo, etc.

Com tudo isso, o que quero apontar é que sustentabilidade é um conceito ligado ao funcionamento de sistemas (sociais ou não) dentro do seu meio ambiente: sistemas não sustentáveis não sobrevivem no tempo a não ser que reencontre um novo ponto de sustentabilidade. Não é um conceito do campo da ética, não serve de critério para julgar a justiça ou injustiça de sistemas sociais. Sustentabilidade é condição de possibilidade da existência de um sistema; discernimentos ético e teológico exigem critérios que vão além disso.

Nesses dias em que a mídia vai nos inundar com a discussão sobre a sustentabilidade, precisamos ficar atentos para não sermos cooptados pelo novo discurso dominante de sustentabilidade que, no fundo, procura manter a sustentabilidade do sistema capitalista. O Capitalismo pode manter-se sustentável sem deixar de ser injusto, sem deixar de ser insensível para com os pobres e excluídos. Em termos de cálculo puramente econométrico, a morte dos pobres até melhoraria o índice de sustentabilidade porque diminuiria a população e, consequentemente, o seu impacto sobre o meio ambiente.

A luta por sustentabilidade é necessária, mas por si só não é suficiente para construir um mundo mais justo e humano.



Jung Mo Sung

Diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Univ. Metodista de S. Paulo. 12.06.12

sexta-feira, 25 de maio de 2012

ONDE SOPRA O ESPÍRITO?



A festa de Pentecostes, celebrada neste domingo, lembra a vinda do Espírito Santo sobre os primeiros cristãos, reunidos no cenáculo em Jerusalém. Com a força do Espírito, sentiram-se animados a partir em missão.
       Daí para a frente, o Espírito Santo iria conduzir a Igreja. Ele se encarregaria de indicar os rumos, e até de antecipar os passos que os cristãos deveriam dar.
        Foi o que aconteceu, por exemplo, quando Pedro foi procurado por Cornélio, um pagão, que o convidava a visitar sua casa.  Ao entrar, Pedro se surpreendeu, vendo que o Espírito Santo descia sobre os pagãos, da mesma maneira como tinha descido sobre eles em Pentecostes.
     Pedro então compreendeu que os pagãos eram destinatários do Evangelho, tal como o povo de Israel. A Igreja aprendeu a estar atenta aos sinais do Espírito, para tomar suas decisões com segurança.
       Foi o que aconteceu em nossa época, com o anúncio do Concílio Vaticano Segundo, em janeiro de 1959. O Papa João 23 não se cansava de testemunhar que a ideia de um concílio tinha surpreendido a ele mesmo.   A certeza da inspiração divina lhe vinha da pronta adesão do povo, que de imediato se identificou com a proposta do papa. Com esta certeza, a Igreja pôde levar em frente a realização do Concílio.
       Algumas manifestações do Espírito são fáceis de identificar. Sobretudo quando contam com o aval do povo. A própria teologia reconhece que o “sensus fidelium”, a “intuição dos fiéis” é sinal seguro de procedimento eclesial.  
       Mas existem situações mais complicadas. Nem sempre o clamor do povo é porta-voz do Espírito Santo. Há certas manifestações, também políticas e sociais, cuja ênfase, em vez de manifestar caminhos seguros de procedimentos corretos, esconde interesses não confessados, e tenta forçar rumos que não levam ao bem comum.
       Por isto, não dá para colocar na conta do Espírito Santo todas as manifestações populares. A confiança no Espírito de Deus não dispensa o esforço de discernimento, para perceber os valores que estão em jogo.
       O próprio Evangelho nos dá uma pista, quando Jesus explica como seria o procedimento do Espírito. Disse Ele que o Espírito “não falará de si mesmo... mas receberá do que é meu e vo-lo anunciará” (Jo 16, 13).
        Com esta afirmação, Jesus sinaliza a necessidade de constatar a coerência entre o que ele fez e ensinou, com as manifestações que possam ocorrer. Para serem do Espírito, precisam estar em sintonia com as verdades objetivas proclamadas por Cristo.
        A Bíblia conta uma bonita história, para advertir da necessidade de discernir a presença de Deus. Elias estava refugiado na caverna, nas proximidades do monte Horeb. Foi avisado que Deus passaria naquela noite. Ele se colocou então na entrada da caverna. Veio um forte furacão que fazia as rochas se contorcerem. Mas Deus não estava no furacão. Depois aconteceu um violento terremoto, que sacudiu a terra. Mas Deus não estava no terremoto. Depois desceu um fogo devorador. Mas Deus não estava no fogo. Por fim, veio uma brisa suave, que amenizou todo o ambiente. Era Deus que estava chegando.
         Precedendo a este episódio, o mesmo livro narra a cena do confronto de Elias com os 400 sacerdotes do deus Baal. Desafiados por Elias a invocarem o seu deus para que fizesse descer fogo sobre a lenha da oferenda, os sacerdotes gritaram o dia inteiro, mas não foram capazes de se fazerem ouvir por seu falso deus. Ao passo que Elias, com poucas palavras, foi prontamente atendido por Javé.
        Há certas manifestações que se assemelham à gritaria dos sacerdotes de Baal.  Em nada contribuem para o discernimento objetivo dos problemas a resolver.
       A análise objetiva da realidade é garantia mais segura do acerto das decisões a serem tomadas.        
                                        
D. Demétrio Valentini

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Artigo

CAIO AUGUSTO DE ANDRADE,
31 Padre Hortolândia

Em outubro de 2008, vão acontecer em todo Brasil eleições para prefeitos e vereadores. Dessa forma, queremos apontar alguns critérios bíblicos a partir dos quais os cristãos católicos e outros cidadãos com consciência possam prudentemente escolher seus candidatos e não anular o seu voto. No período das eleições, virão às nossas igrejas candidatos muito bem aparentados, demonstrando santidade e temor a Deus. Tomemos cuidado! Muitos são falsos profetas: eles vêm vestidos com peles de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes (cf. Mt 1,15). Fazem discursos bonitos de mudança de vida e de conversão e chamam Jesus, dizendo: Senhor, Senhor. Mas é tudo aparência. O lobo pode trocar de pele, mas não pode mudar a sua natureza.

Os eleitores não podem deixar-se enganar pelas aparências ou pelos discursos eloqüentes. Eles têm que olhar mais além. Devem ter senso crítico e ver os frutos dos candidatos. Pelos frutos conheceremos a árvore (cf. Lc 6,44). Ver os frutos do candidato é ver sua trajetória política, percebendo se ela esteve voltada aos interesses da coletividade, se esteve ligada às necessidades reais da população e se houve transparência na sua gestão. É importante ver nos candidatos quem são eles, sua origem política, o que já realizaram em prol da população, qual é a sua história, quais são suas propostas, se estão vinculadas ao programa de um partido, ou se estão atreladas apenas a grupos de interesses financeiros.

O Salmo 72 (71) descreve o governante ideal: ele livra o pobre que pede auxílio, o oprimido que não tem protetor; tem piedade do pobre e desvalido e salva a vida do pobre (cf. Sl 72,12-13). O verdadeiro governante cristão segue o projeto de Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Então, este é o primeiro e mais importante dos critérios para votar em um candidato: sua posição em relação à defesa da dignidade da pessoa humana e da vida, em todas as suas manifestações, desde a sua concepção até o seu fim natural com a morte.

Nos livros de Samuel, o modelo de governante é o rei Davi. Ele é submisso a Deus e não mata o seu inimigo Saul, o ungido por Deus (cf. 1Sm 26,9-10). Aceita a correção do profeta Natã quando ele peca (cf. 2Sm 12,1-15). A partir desse modelo de governante, podemos ter os critérios indicadores de verdadeiras motivações dos candidatos (mesmo quando eles se consideram ateus): a honestidade e a competência demonstradas pelos serviços prestados com transparência administrativa e financeira.

Assim, colocamos os seguintes critérios para a escolha dos candidatos: respeito ao pluralismo cultural e religioso; comportamento ético dos candidatos; e defesa da vida, da família e da liberdade de iniciativa no campo da educação, da saúde e da ação social, em parceria com as organizações comunitárias. Consideramos qualidades imprescindíveis para os candidatos a honestidade, competência, transparência, vontade de servir ao bem comum, comprovada por seu histórico de vida. Para tanto, reafirmamos o Documento de Aparecida ao “apoiar a participação da sociedade civil para reorientação e conseqüente reabilitação ética da política” (n. 406).


Artigo Publicado pelo Jornal TodoDia 16/06/2008