quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A TRAGÉDIA DE SANTA MARIA

                                                                                        
           Tão fácil não será esquecida a cena que logo foi difundida pelo mundo. De um momento para outro, em questão de minutos, o que era uma festa alegre e descontraída, se tornou um desastre de consequências terríveis e inesperadas. Mais de duzentas pessoas acabaram morrendo subitamente, mal tendo tempo para se darem conta da fatalidade que se abatia de repente sobre elas.
Perderam a vida, lá onde tinham ido para comemorá-la. De repente, o que devia ser um ambiente seguro e propício para a alegria e o divertimento, se tornou uma terrível armadilha, de onde foi difícil escapar, mesmo para aqueles que conseguiram sair de suas garras.
Diante de um fato trágico como este, que implicou a morte de centenas de pessoas, num primeiro momento nos invade o sentimento de impotência, face a realidades que impiedosamente vão ceifando pessoas, tirando-lhes o dom mais precioso, imprescindível, e insubstituível, que é a própria vida.
A difusão da notícia foi suscitando um turbilhão de sentimentos. Todos nos imaginamos como teria sido diferente se em tempo o incêndio pudesse ter sido evitado. Teria sido tão fácil agir com antecedência, ficou tão difícil enfrentar as consequências.
Esta constatação faz logo pensar na medida indispensável que precisa sempre ser tomada, de prevenção adequada a ser feita, com a suficiente garantia e com medidas generosas, mesmo que pareçam exageradas quando vistas fora de nossas previsões de acidentes inesperados que possam acontecer.
Esse fato deixará certamente muitas lições práticas, a serem tiradas por todos. De maneira especial pelas autoridades encarregadas de urgirem a segurança em qualquer ambiente de aglomeração humana.
Mas antes de pensar nas providências que esta tragédia vai certamente despertar, todos nos sentimos ainda envolvidos e solidários com as pessoas que mais de perto estão agora experimentando a dureza deste drama que se abateu sobre elas, de maneira tão terrível e inesperada.
Para os que morreram, podemos ter uma certeza iluminadora, seja qual for a forma que toma nossa fé e nossa esperança. Com serenidade, para eles, podemos cultivar a certeza de que terão se encontrado com o Deus da vida, que os acolheu com misericórdia, ternura e bondade, fazendo com que passassem diretamente da festa nesta vida, para o banquete definitivo, mesmo que isto tenha acontecido em hora tão inesperada.
Esta certeza a respeito de todos os falecidos nesta tragédia, serve de principal conforto para os sobreviventes, seja os que estavam na festa e conseguiram sobreviver, seja para as famílias, para os parentes e amigos dos falecidos.
Assim mesmo, sabemos que a dor persiste e vai ser levada para a vida inteira. E diante desta dor humana, a melhor atitude é o respeito, o silêncio, e a solidariedade com todos e cada um.
São muitas as reflexões que este triste acontecimento suscita. Ainda mais diante do fato de ter envolvido especialmente jovens, neste ano em que a Campanha da Fraternidade tem como tema a juventude, e como evento principal o encontro mundial do Papa com os jovens, aqui no Brasil.
A seu tempo, estas reflexões precisarão ser bem recolhidas, para serem transformadas em lições de vida.
Impressiona a constatação de que a grande maioria das vítimas deste incêndio, não morreu queimada. Morreu por inalar fumaça tóxica produzida pelo fogo. Esta circunstância é carregada de simbolismo. Quando se queimam valores, se abandonam critérios éticos, se esquecem recomendações da prudência e da sabedoria tradicional, o perigo mora nas consequências! Parece inócuo prescindir destas referências. Mas a seu tempo o resultado se manifesta. 
É urgente identificar onde mora na sociedade de hoje a fumaça tóxica que ceifa vidas e impede sua realização plena. Que este triste episódio de Santa Maria sirva de alerta a todos.         

                                                                                                                               D. Demétrio Valentini

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Saúde brasileira e compaixão evangélica


"Jesus percorria todas as cidades e povoados,
ensinando em suas sinagogas,
pregando a Boa Nova do Evangelho,
 e curando todo tipo de doença e enfermidade.
Vendo as multidões,
 Jesus teve compaixão, porque estavam cansadas e abatidas,
 como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9, 35-36).
 

                Dor sem remédio, doença sem cura, enfermidade crônica – eis como aparece o sistema de saúde brasileiro no dia-a-dia da população. As imagens recentes, especialmente nas capitais de Salvador e Rio de Janeiro, já se tornaram "pão nosso de cada dia”: fila interminável para marcar consulta, muitas vezes somente para o próximo ano; idosos, enfermos, pessoas em cadeira de rodas, gente visivelmente debilitada, chegando a dormir na fila para não perder o lugar; alguns morrendo antes de serem atendidos; senhas que não alcançam a todos, deixando boa parte à margem... E coisas desse tipo! Chagas vivas de um sistema de saúde enfermiço.
Apesar de comuns e amplamente divulgadas pelos meios de comunicação social, tais cenas chocam e impressionam duplamente a opinião pública: de um lado, rostos e membros mutilados por um sofrimento acumulado, expostos à luz do sol e da mídia, feridas que parecem jamais cicatrizar; de outro lado, o descaso dos funcionários, atendentes e médicos, mas de modo particular das autoridades de primeiro escalão do sistema de saúde, em nível municipal, estadual e nacional.
Dos postos e ambulatórios de atendimento assistencial e imediato ao Ministério da Saúde, passando por hospitais, laboratórios e farmácias, planos de saúde, o que se vê é uma rede cheia de nós, de curtos-circuitos, onde sobram os males e faltam soluções, sobram as dores e faltam remédios. Um verdadeiro labirinto sem saída, em que emperram, se engavetam ou são adiadas exames, consultas, cirurgias. Em nenhum outro setor das políticas públicas é tão evidente e flagrante o jogo de empurra-empurra.
Das casas e ruas, dos pontos de ônibus e feiras, dos botecos e supermercados, dos campos e praças – levanta-se uma única pergunta: o que está faltando?  Recursos públicos? Certamente não, pois eles aparecem com extrema abundância em outras áreas, especialmente nos incentivos fiscais à indústria e ao comércio, ao agronegócio e às grande obras do PAC, como se o crescimento a qualquer preço fosse a "panaceia para todos os males”. Sem falar dos gastos com a máquina administrativa dos três poderes, executivo, legislativo e judiciário, e deixando de lado os desvios com a corrupção.
Segue de pé a pergunta: o que está faltando?  Orçamento para a saúde pública? Também não, porque ele existe, mas muitas vezes é contingenciado (como o são os gastos com educação, transporte, segurança, infraestrutura, calamidades, etc.), em vistas de outras "urgências governamentais”. O que importa é manter a porcentagem do PIB em permanente ascensão, satisfazendo, por exemplo, o transporte privado, o consumo da classe média ou os lucros estratosféricos do sistema financeiro (leia-se Bradesco, Itaú, Santander...). Deixemos de lado, uma vez mais, os gastos com a Copa do Mundo e as Olimpíadas, os quais, por si só, exigiriam um capítulo à parte.
A pergunta é teimosa como a própria dor: o que está faltando?  Talvez uma concepção diferente da saúde pública (para não falar de outras áreas). O que prevalece em geral é a visão mercantilista. Os serviços se convertem em oportunidades de acúmulo de capital. Os direitos adquiridos se reconvertem em mercadorias a ser negociada na férrea lei da oferta procura. No contexto do mercado total, tudo se transforma em bens de troca, incluindo a uma consulta urgente, sob risco de morte; os alimentos da cesta básica, em meio à miséria e fome; o remédio indispensável e ininterrupto, que subordina a própria sobrevivência; o deslocamento para o trabalho, longo, caro e cansativo; o sexo, o prazer e o lazer; e até os bens relacionados ao sagrado.
Caminhando para a conclusão, vale retomar as palavras evangélicas da epígrafe. Dor, fome e solidão constituem três irmãs siamesas: não podem esperar! É isso o que mostra a prática de Jesus. Sua caravana nunca atropela quem sofre, nunca abandona e necessitados. Sempre se detém diante o grito que vem dos pobres (é o caso dos cegos de nascença, da mulher que sofria de fluxo de sangue e de tantos outros). Grito tanto mais eloquente quanto mais silencioso e silenciado. Os sem vez e sem voz encontram profunda repercussão no coração de Jesus. Daí sua aguda atenção aos mudos e mutilados da história, mutilados no corpo, na alma, nos direitos – "multidões cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor”.
No ponto final, uma pequena luz à insistente pergunta: o que está faltando? Quem sabe uma prática política fundamentada na ética e nos valores acumulados pela humanidade ao longo dos séculos. Nesta perspectiva, o que está em jogo não são os privilégios e o patrimônio das classes poderosas e dominantes, e sim o bem comum da população como um todo. Creio não ser inoportuno o critério da "compaixão evangélica” como barômetro das decisões a serem tomadas diante dos setores de baixa renda, evitando sempre o fundamentalismo e o obscurantismo religioso, que tanto mal semearam nas trilhas da história.
No fundo, nada de novo, apenas o regime democrático levado a sério, não somente no espetáculo das eleições e campanhas, urnas e votos; mas, sobretudo, da partilha justa e equitativa, fraterna e solidária da riqueza produzida por toda a nação. Mais do que "crescer para depois dividir o bolo” (como dizia Delfim Neto em anos passados), o que se necessita é abrir oportunidades a todos, numa economia nova em termos sociais, políticos, culturais e ecológicos. Boas iniciativas têm sido criadas pelos últimos governos, mas esse enfoque político e econômico requer novos canais, instrumentos e mecanismos de participação popular, no sentido de controlar a ação de seus representantes políticos, de decidir sobre as políticas públicas, como também de controlar o orçamento em todos os níveis.
Numa palavra: socializar em termos cada vez mais vastos e eficazes três questões de fundamental importância para uma economia justa, solidária e sustentável: o que produzir? Como produzir? E para quem produzir?
Pe. Alfredo J. Gonçalves
Assessor das Pastorais Sociais – 07/12/12

terça-feira, 13 de novembro de 2012

CONSCIÊNCIA NEGRA


                                           

O dia 20 de novembro é dedicado à “consciência negra”, iniciativa que visa estimular e fortalecer a consciência da identidade própria racial e cultural dos negros no Brasil.

A iniciativa já seria válida pelo número de pessoas que se sentem envolvidas nesta questão. Não é fácil ter estatísticas precisas, justamente numa realidade que está em plena mutação, em boa parte, exatamente, pelo processo em andamento, de identificação racial e cultural.

Mas dá para afirmar que, aproximadamente a metade da população brasileira se assume como possuindo componentes importantes ligados à negritude.

Comparando com dados recolhidos nos sensos anteriores, percebe-se claramente que aumentou muito o contingente de brasileiros que se assumem como negros.

Isto demonstra que a iniciativa de promover a “consciência negra” vem dando bons resultados, sobretudo em termos de superação de preconceitos que a população ainda carrega, seja em referência aos negros, seja também de negros que acabam, de alguma maneira, introjetando o preconceito dentro de si próprios.

O fato é que permanece muito difícil a superação de preconceitos longamente implantados ao longo da história, com o apoio da organização econômica e social, que traduzia o preconceito em medidas de opressão e de exclusão social, econômica e cultural.

A dificuldade em remover a carga de preconceitos que pesam sobre a população negra do Brasil, que ainda carrega as consequências do regime de escravidão, justifica as políticas públicas, que visam acelerar o processo de equiparação completa entre todos os cidadãos brasileiros, independente de raça ou de outros critérios.

Entre estas políticas, está o “sistema de quotas”, que visa garantir uma crescente participação de negros nos cursos universitários. Este sistema encontra uma primeira justificativa diante da grande disparidade existente nas universidades, onde a participação de negros é flagrantemente desproporcional.

Alguns ponderam que este sistema, que pretende superar a discriminação, traz em sim mesmo um viés discriminatório, na medida em que reforçaria o que se quer superar, isto é, ter a raça como referência para políticas públicas.

Acontece que a conveniência destas iniciativas tem presente a realidade concreta, constatada pelas estatísticas, de uma disparidade que, se continuada, perenizaria a desigualdade ora existente. 

Mas também é verdade, que se pretendemos que estas políticas sejam eficazes, precisamos admitir que devem ser provisórias. Pois em perspectiva, se elas conseguem o efeito pretendido, levarão a uma situação em que o ideal será a perfeita igualdade de oportunidades, que todos poderiam ter, sem a ajuda de quotas ou de outras medidas que podem valer agora, mas carregam consigo a marca da caducidade.

Bom seria se o Brasil pudesse, de fato, dar ao mundo o precioso testemunho de uma sociedade igualitária, em perfeita convivência de raças diferentes, que prescindirão sempre mais de regulamentação legal para se relacionarem no respeito mútuo e no diálogo fraterno.
    
                                                                                                                        Dom Demétrio Valentini
 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Regional Sul 1 realiza Encontro de formação da CF-2013


Com o tema “Fraternidade e Juventude” e Lema: “Eis me aqui, envia-me!” (Is 6, 8) aconteceu nos dias 26 27 e 28 de outubro, em Itaici, Indaiatuba (SP), o Encontro de Formação da CF-2013 que contou com 250 representantes diocesanos entre jovens e coordenadores diocesanos da CF. Estiveram representadas 36 das 41 dioceses do regional Sul 1.
 
Com experiências trazidas das diferentes regiões do Estado e são Paulo e em harmonia com nossa Igreja, Francisco Catão trouxe para o debate os 50 anos do Concílio Vaticano II na perspectiva da juventude. Falou com o coração e emocionou a todos os presentes com seu conhecimento e simplicidade de quem viveu e vive o concílio. Ainda na sexta a noite professor Osmar Cavaca falou sobre Ano da Fé e seu desenvolvimento, associando-o ao tema da CF 2013.
Toninho Evangelista - Secretário executivo da CF
Regional Sul 1 - CNBB 
 
Para o sábado foi reservado o estudo do Texto-base e pela manhã monsenhor Pe Jamil de Souza apresentou os aspectos do VER, seguindo pelo JULGAR que foi apresentado pelo Pe. Antonio Carlos Frizzo, coordenador regional da CF no regional Sul I.
No inicio da tarde Edson Silva representante do SPI motivou os presentes para o AGIR, que foi proposto com o desenvolvimento de 15 oficinas com temas que possibilitavam o agir no aspecto social, eclesial e pessoal.
As oficinas possibilitaram ouvir e partilhar experiências entre todos os presentes.
No domingo de manhã, padre André Cunha de Figueiredo Torres, motivou não só os jovens que estavam presentes, mas a todos os representantes para participarem de alguma forma da Jornada Mundial da Juventude e afirmou que a CF 2013 é um importante momento da Igreja do Brasil e que pode ser um diferencial para o mundo se todos se envolverem com a Jornada Mundial.